

A chuva e a menina do meu passado
✎ᝰ.✿ ° ✿ °•.ᥫ᭡. Às vezes, a alma está tão cheia que um formato só não basta: é preciso a liberdade do poema sem sentido para descarregar o que não cabe em palavras, e a estrutura do conto de fadas para inventar o final feliz que a realidade nos negou. Misturar a razão da mulher com a imaginação da menina é o que torna a arte autêntica. Cá estou eu refletindo sobre a vida! A temperatura abafada me faz dar uma pausa O céu escureceu do nada, anunciando a chuva A primeira gota atingiu meu rosto como um aviso, mas eu não me mexi. No banco da praça, ao meu redor, o mundo corria. Pessoas erguiam pastas, abriam guarda-chuvas coloridos e fugiam da água como se a chuva fosse feita de pecado. Eu fiquei. Tinha decidido que hoje não haveria esconderijo. Foi então que a vi. Sentada na outra extremidade do banco, ignorando o temporal que começava a encharcar seu vestido verde-claro, ali estava a minha versão de 30 anos atrás, talvez até mais. Ela usava um laço no cabelo e segurava um livro de contos de fadas com as mãos miúdas. — Você vai resfriar — eu disse, a voz rouca pela falta de uso. A menina não olhou para mim. Ela sorria para as páginas, aquele "sorrisinho falso" que eu conhecia tão bem, a máscara de quem acredita que, se cantar ciranda bem alto, a tristeza vai embora. Ela sorria e cantava ciranda cirandinha — O céu está desabando, e você continua lendo sobre carruagens de abóbora? — provoquei, sentindo a "faca afiada" da minha sinceridade cortando o ar entre nós. Ela finalmente me olhou. Seus olhos eram espelhos do que fui: cheios de mentiras bonitas e verdades ocultas. — Eu estou esperando o sol — ela respondeu, doce e ingênua. — Ele sempre volta nas últimas páginas. — Aqui não há páginas, menina— falei, aproximando-me. — Aqui há apenas asfalto, cansaço e essa realidade oposta dos contos de fadas .Eu tentei recitar amor para o mundo e saí machucada. Eu tentei ser a Bela Adormecida, mas acordei no meio do barulho. A menina fechou o livro. A capa, antes colorida, agora estava borrada pela chuva. Ela olhou para as próprias mãos vazias e depois para as minhas, calejadas pela realidade. — Nada me deves — ela sussurrou, repetindo o que eu sentia no peito. — E nada te devo — respondi. Naquele instante, a chuva apertou. Num piscar de olhos, o lado direito do banco estava vazio. A menina do nada tinha sumido, dissolvida pelo temporal, deixando apenas o cheiro de terra molhada e a certeza de que a infância é uma fábula que a gente precisa deixar o céu lavar. Levantei-me. Meus pés pesavam, as roupas grudavam no corpo, mas o vazio no coração tinha sido preenchido por algo novo: a paz de quem não precisa mais mentir para si mesma. Olhei para o céu cinza uma última vez. Ele continuava no mesmo lugar, mas eu, finalmente, tinha aprendido a caminhar sob ele sem medo de me molhar. Toda matéria viva se reconstrói. E eu acabo de começar a minha obra. Talvez eu faça apenas um poema sem sentido Ou crie frases de otimismo Talvez Um conto de fadas que eu não vivi Mas certamente dará alegria aos olhos de alguém. A chuva não me assustou ela apenas lavou a minha alma E a menina sorriu e com seu livro partiu.. Dando lugar a mulher que ainda sonha com boas intenções Afinal: Água com açúcar adoça o café amargo que aquece o corpo molhado pela chuva. Que passou…..ᥫ᭡.
Categoria: conto Autora: Starisy Starisy
Enviado por Starisy em 08/02/2026
Comentários
|