Starisy

"Seria cômico se não fossem crônicas poéticas"

"Seria cômico se não fossem Crônicas poéticas... Starisy
Textos


O cheiro do café é bom ☕︎

 

A xícara branca de cerâmica tinha uma pequena lasca na borda, bem onde eu costumava encostar o lábio inferior. Estranho como só notamos as rachaduras quando paramos de fingir que tudo é perfeito.

Pela porta do café, o sol de final de tarde entrava enviesado, cortando o ambiente com uma luz dourada e brilhante que revelava cada partícula de café suspensa no ar pela fumaça do coador. Era uma claridade que não aquecia, apenas expunha.

Fiquei ali, passando a ponta do dedo pela irregularidade da cerâmica, sentindo a aspereza do que estava quebrado. A lasca era minúscula, quase invisível para quem olhasse de longe, mas sob o tato, parecia um abismo. Engraçado como a gente se acostuma com o desconforto até que ele se torne parte da rotina , como um sapato apertado ou um silêncio prolongado demais onde deveria haver música ambiente .

Pela janela do café, o sol de fim de tarde esticava as sombras das pessoas na calçada. Eu não era mais Alice, e aquele lugar definitivamente não era o País das Maravilhas. Era apenas a Rua do Ouvidor, cheia de gente apressada voltando para casas que talvez nem quisessem habitar.

Ele chegou sem barulho. Sentou-se à minha frente sem pedir licença, porque a intimidade tem esse vício terrível de ignorar protocolos.

— Você mudou o corte de cabelo — ele disse, buscando um território seguro.

— Mudei o jeito de olhar para o céu também — respondi, sem sorrir. O "sorrisinho " que mencionei em minhas cartas antigas tinha morrido naquela manhã, sufocado pelo travesseiro.

Ele abriu a boca para recitar uma daquelas frases prontas, uma "cantiga de ninar" para adultos, algo sobre o tempo curar todas as feridas. Eu o interrompi com o barulho da colher batendo no fundo da xícara.

— Não tente recitar versos para quem decidiu ficar surda aos seus encantos, querido.

Ele pega a carteira para pagar a conta e eu peço para dividir igualmente.

Nada te devo, nada me deves.

Houve um silêncio pesado, como um livro de fábulas que se fecha com força, levantando poeira. Ele olhou para as próprias mãos, talvez procurando as razões que eu havia chutado para o alto. Pela primeira vez, eu não me senti culpada pelo vazio. O vazio era limpo. O vazio era honesto.

— O que você vai fazer agora? — ele perguntou, a voz quase num sussurro.

— Vou caminhar sob o sol de amanhã — eu disse, levantando-me e deixando o café morno para trás, junto à aliança de compromisso. — Mas desta vez, vou sem sapatos de cristal. Eles cortam os pés, e eu aprendi que toda matéria viva precisa ser reconstruída sobre o que é real.

Saí pela porta de vidro. O sino tocou em cima de mim, anunciando minha partida. Eu não estava correndo, cada um estava apenas andando, sentindo o peso real de cada passo no asfalto quente.

Apenas seguindo em frente 

Cada um para o seu lado e juntos contra a corrente.

E o vento da liberdade cantando suavemente nos seus rostos.☆.•° ✿ °•.☆.•° ✿ °•.ᥫ᭡.

 

Ps_ qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência 😁😅

Sinopse:

Não estou apaixonada

Não terminei nenhum relacionamento

Também não tô começando e tão pouco procurando

Estou apenas escrevendo 🖋️☆.•° ✿ °•.☆.•° ✿ °•.ᥫ᭡.

Starisy
Enviado por Starisy em 05/02/2026
Alterado em 06/02/2026


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